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ARTIGO 1: Trovões e Cunhadas

20/03/2010 - 05h40 , sem atualização
 Marcelo Ratier*



Este ano as duas Mogis foram e continuam sendo mimoseadas com chuvas, raios e trovões em quantidades fora dos padrões normais. Explicam prá gente que é o aquecimento global, a vingança da Gaia, El Nino e La Nina, fim do mundo em 2012, derretimento das calotas polares, sabendo-se lá mais o que poderia provocar o fenômeno. Aqui na cidade, tenho uma cunhada que sofre de brontofobia, nome imponente para quem tem medo de trovões e raios. Ao menor sinal dos roncos celestes a coitada se põe a tremer e a lamentar sua triste sina por viver em um planeta tão cruelmente fustigado por tais manifestações, que chegam atreladas a ribombares engasgados, cruéis ventos assobiadores e outras ocorrências afins. O trovão, ronco zangado do raio ao atingir a terra, provoca a imediata ida da minha cunhada à casa do vizinho mais próximo em busca de abrigo, embrulhada em cobertor ou manto que lhe esconda o pobre corpo, dissimulando-se em qualquer local que lhe pareça seguro e inacessível às maldades do rugidor implacável.

Acho cá que ela deveria considerar-se feliz ao ouvir os trovões, pois sendo a velocidade da luz maior que a velocidade do som, quando este é ouvido o raio já caiu há algum tempo, e se pode ouvi-lo seguramente, foi por não ter sido atingida. Dentro da sua lógica utilizada, ao esconder-se deveria estimar também que, ao correr dos trovões para a casa do vizinho, leva a possibilidade de carregar para lá aquilo que de que antes fugiu. Mas nossa brontofóbica cunhada é resistente a razão e não cede jamais. Vive sobre o domínio da sua fobia e não entende a crueldade das demais pessoas em zombar das suas legitimas aflições. Talvez por que as pessoas ditas normais não escutem verdadeiramente o som do trovão e não possam intuir nestes delirantes sons do inferno (e assim o são para a seletiva audição da nossa cunhada), todos os cataclismos e as pavorosas transformações propiciadas pelos raios e confirmadas pelos trovões, ocorridas desde há milhares de anos. Se ela procurou tratamento para o problema? Claro que sim!

Foi atendida por renomado profissional da capital, que garantiu resolver tudo em algumas sessões de hipnose. Digamos que não houve sucesso relativo aos raios e trovões, mas conseguiu-se transferir bela soma da sua carteira para a do feliz e já abastado profissional, em paga do serviço prestado. Antes que perguntem, gosto muito de minha cunhada sim, e sou solidário a ela por viver momentos tão cruéis e aflitivos. Penso inúmeras vezes haver encontrado soluções que possam melhorar sua condição angustiante, mas em certas ocasiões estas fogem de meu cérebro tão depressa que nem chego a considerá-las. Basta apenas o iniciar da cantilena longínqua de trovões se aproximando para que eu prontamente racionalize e me ponha a correr para a casa de meu vizinho, tão depressa quando possa e embrulhado num manto qualquer, a espera do próximo e aterrorizante fulgor de um raio furioso.



* Marcelo Ratier é livre pensador, admirador de lêmures e cidadão mogimiriano
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